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Valentina e a Ilha Misteriosa

Tradução portuguesa por Paulo Abreu and Britta Szymczak

Album V: Girl in Window, Porto Santo, Madeira,1934

Esta beleza à janela foi o primeiro instantâneo antigo que me apanhou em Portugal. Estava escondida num álbum de fotografias meio desfeito que encontrei numa feira, ao pé de um par de asinhas amachucadas e de uns guardanapos de avó. Foi amor à primeira vista. Comprei o álbum por dez euros e esgueirei-me como uma ladra, levando o meu tesouro para um café ao lado que vende os mais intoxicantes bolinhos de cardamomo. Suportada por cafeína e açúcar, dei uma olhada ao meu mais recente tesouro de imagens. Os meus olhos deram três reviravoltas.

Dei-lhe o nome de Valentina, visto ela ser obviamente o amor e a paixão de alguém. V é a estrela em cada uma das fotos do álbum. Em alguns dos instantâneos ela aparece sozinha; noutros, está com a família. Em ambos os casos, V é o sabor favorito do fotógrafo, e ela não se importa, a julgar pelo seu à-vontade em frente da lente.

Siren on the Rock, Porto Santo, 1934Estas fotos foram tiradas no início dos anos trinta, quase todas na pequena ilha de Porto Santo, a 43 quilómetros a norte da Madeira e a Oeste de Portugal e de Marrocos. Esta gema subtropical escondida no Atlântico era (e ainda é) um local favorito de férias para os vizinhos madeirenses, com a sua praia com nove quilómetros de areia dourada, águas temperadas em turquesa e uma paisagem cinematográfica forjada por deuses vulcânicos. Uma família de vulcões desativados assombra a ilha, com os seus picos servindo de fundo dramático para muitas destas fotos antigas.

Há vestígios de uma visita dos vikings ao arquipélago da Madeira no século x (deixaram para trás uns ratos suspeitosamente nórdicos), mas os portugueses foram os primeiros a clamarem como seu este salpico de ilhas. Em 1418, um navio de exploradores foi arrastado por uma tempestade para as águas protegidas de Porto Santo e os marinheiros agradecidos deram-lhe o nome. Infelizmente, um pateta qualquer largou uma família de coelhos na ilha e passado pouco tempo os seus descendentes tinham triturado a flora nativa quase até à extinção.

Rock, Sand, and Shadows, Porto Santo, 1936O explorador Cristóvão Colombo veio a Porto Santo em 1478 para comprar açúcar de cana e encontrou outro tipo de doçura. Casou-se com Filipa Perestrelo e Moniz, a filha do governador da ilha, e assentou arraias numa modesta casa de pedra. Depois de Filipa morrer ao dar à luz, Colombo partiu da ilha para outros horizontes. A sua casa é hoje um museu.

Durante os séculos xvi e xvii, Porto Santo foi pilhada frequentemente por piratas e corsários. Em 1617, uma esquadra de oito navios argelinos atracou no porto. Os mercenários espalharam-se pela ilha, raptando mais de 900 pessoas e levando-as acorrentadas para a Tunísia, para aí serem vendidas como escravas.

Sun and Straw, Porto Santo, Madeira, 1934

Pouco mais foi escrito sobre este local fora do mundo. Um filme português foi filmado na ilha em 1938, A Canção da Terra, escrito e realizado por Jorge Brum do Canto. O filme não se preocupa muito com o argumento, mas as suas referências culturais e estilo cinematográfico — refletindo a propaganda do Estado Novo salazarista — merecem ser vistas. Brum do Canto, originalmente de Lisboa, ficou tão atraído pela ilha de Porto Santo que mais tarde se mudou para lá.

 

Picnic on the Volcano, Porto Santo, 1935

 

 

Valentina on the Dock, Porto Santo, Madeira, 1934Let Us Out Now, Porto Santo, Madeira, 1935

O que mais me encanta nesta coleção é como retrata não só o encanto entre o fotógrafo e a musa, mas também o poder de um lugar em enfeitiçar e influenciar como as pessoas se sentem e se movem através do espaço. A Natureza pode fazer isso connosco, se a deixarmos.

A fotos compartilhadas aqui são apenas algumas das que estão no álbum da Valentina. Visto os originais se terem degradado ao longo dos últimos noventa anos, digitalizámos e restaurámos cada uma antes de a publicar. Iremos adicionando mais consoante as tragamos de volta à vida. E sintam-se à vontade para nos darem quaisquer outras informações que tenham sobre Porto Santo, Madeira ou Valentina, a nossa beleza misteriosa.

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